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Tratamento Dietético da Obesidade:
Recomendações Estratégias e Novas Evidências

Por Dra. Zuleika Salles Cozzi Halpern e Mariana Del Bosco Rodrigues *

A assustadora incidência de obesidade no mundo é decorrente de um balanço energético positivo. Cada vez mais, a população ingere mais calorias e gasta menos energia. A base do tratamento dietético da obesidade é a prescrição de uma dieta hipocalórica que favoreça o déficit energético.

Podemos afirmar que a redução de calorias, independente da qualidade nutricional ou da distribuição dos macronutrientes, favorece a perda de peso. Em um estudo do Jama (1999), Serdula e cols observaram que a maioria das pessoas que estão tentando emagrecer não segue uma dieta hipocalórica e balanceada que leve à reeducação alimentar, mas sim uma “dieta da moda”.

Em 2001 o Obesity Research publicou uma revisão científica de diversas dietas populares e concluiu-se o que já se esperava. Essas dietas são realmente condenáveis, principalmente com relação à manutenção. Por outro lado, a revisão nos traz evidências de que alguns aspectos dessas dietas não convencionais devem ser considerados. O primeiro aspecto é que algumas dietas têm um forte apelo que pode auxiliar a adesão dos nossos pacientes e o segundo é que muitas delas focam o tipo de macronutriente, o que abre uma discussão para uma melhor recomendação nutricional.

Nos últimos anos muitos trabalhos enfatizam o papel dos macronutrientes na perda de peso e na manutenção da boa saúde. Centenas de artigos discorrem sobre o efeito dos vários tipos de dietas com as mais diversas composições. Podemos destacar as principais evidências:

CALORIAS

• Dietas hipocalóricas (low calorie diet) podem reduzir o peso em 8% num período de 3 a 8 meses;
• Dietas com muito poucas calorias (very low caloric diets) favorecem uma maior perda de peso inicial, mas, a longo prazo, o total de peso perdido não difere das dietas hipocalóricas;
• A manutenção do peso é alcançada com mudança comportamental: reeducação alimentar e incorporação do hábito de atividade física;
• A densidade energética dos alimentos deve ser considerada. É recomendável estimular o consumo de alimentos com maior volume e poucas calorias. Para tanto é preciso, diminuir a ingestão de gordura e aumentar a ingestão de alimentos naturais e ricos em água.

GORDURAS

• A gordura saturada relaciona-se com o aumento de colesterol ( á1% de sfa na dieta = á 2,7 mg colesterol/ dl de sangue);
• O ácido palmítico, presente na carne, corresponde, em média, a 60% da ingestão de saturados em uma dieta. Esse ácido graxo é um dos mais hipercolesterolêmicos;

• O ácido láurico está presente no coco. Também é um saturado, mas é considerado u
ma exceção com relação aos efeitos deletérios por ser facilmente oxidado;
• A gordura denominada TCM (triglicérides de cadeia média) pode contribuir para prevenção de doença cardiovascular por favorecer a oxidação lipídica dos ácidos graxos de cadeia longa (mirístico e palmítico), que são os mais aterogênicos;
• Os triglicérides de cadeia curta são sintetizados por bactérias do colón a partir da fermentação das fibras e do amido resistente. Estes ácidos podem diminuir a síntese hepática de colesterol;
• A substituição de parte da gordura saturada (sfa) da dieta por gordura monoinsaturada (mufa) diminui os níveis de colesterol, triglicérides, glicose e aumenta o HDL;
• O azeite de oliva contém cerca de 77% dos ácidos graxos sob a forma de mufa. Contém ainda alto teor de vitamina

E, antioxidante, que protege da peroxidação lipídica e conseqüente formação de radicais livres;

• Os mufas são geralmente encontrados na forma CIS. Para tornar os óleos mais estáveis e sólidos, utiliza-se um processo chamado hidrogenação, que dispõe os hidrogênios transversalmente. O ácido graxo TRANS está relacionado ao aumento do LDL e da Lp(a) e à diminuição do HDL;
• Os ácidos graxos poliinsaturados (pufa) têm um importante efeito na proteção cardiovascular;
• á1% de pufa na dieta = â1,4 mg colestetol/ dl sangue;
• O ômega 6 está presente em óleos vegetais e o ômega 3 está presente nos peixes. O perfeito equilíbrio entre os ômegas, associado à diminuição de peso, tem um efeito sinergético na melhora da insulinemia, glicemia e perfil lipídico;
• Apesar da redução da gordura ser uma das maneiras mais práticas de diminuírmos a densidade energética da alimentação e as calorias da dieta, devemos considerar que as gorduras boas têm um importante efeito na proteção cardiovascular;
• A recomendação para ingestão de gordura não deve apenas focar-se no peso, mas também nas conseqüências metabólicas;
• O National Cholesterol Education Program, em 2001, recomenda uma dieta com até 35% de gordura, sendo, menos de 7% de sfa, mais de 20% de mufa e mais de 10% de
pufa.

CARBOIDRATOS

• As evidências sugerem que a recomendação para ingestão de carboidratos deve manter-se na proporção de 50 a 60% do valor calórico total da dieta;
• A ingestão de fibras deve alcançar de 20 a 30g por dia;
• A dieta deve ser de baixo índice glicêmico para: diminuir a insulinemia e a resistência à insulina, favorecer a adequada manutenção da glicemia, melhorar o perfil lipídico ( âTG e áHDL), prolongar a sensação de saciedade, suprimir a fome, diminuir o risco de doenças cardiovasculares, diminuir a incidência de diabetes, contribuir para perda e posterior manutenção de peso;
• O índice glicêmico mede a resposta glicêmica pós prandial dos alimentos e permite a comparação entre os diferentes tipos de carboidrato;
• A FAO/OMS já reco–menda que os carboidratos sejam classificados de acordo com o índice glicêmico.

Conclusão

Diante destas evidências podemos considerar algumas ferramentas para flexibilizar a dieta convencional usualmente recomendada aos nossos pacientes obesos.

Indiscutivelmente, o elemento mais importante na dietoterapia da obesidade é a redução da ingestão energética.

A dieta convencional, com a proporção de 25% de gordura, 15% de proteína e 60% de carboidrato pode ser adaptada de acordo com as características e objetivos do paciente. Na realidade, talvez seja mais importante pensar no tipo de gordura e no tipo de carboidrato do que efetivamente na proporção entre eles.

Os estudos recentes demonstram que a simples substituição de gordura por carboidratos pode induzir hiperinsulinemia, hiperglicemia e diminuir o HDL. Com isso, tem-se que a troca de gordura por carboidrato, sem restrição calórica e conseqüente perda de peso, mantém os mesmos riscos para doença cardiovascular.

Portanto, a recomendação dietética deve favorecer o balanço energético favorável e enfatizar a troca de saturados e trans por não hidrogenados e insaturados. Com relação aos carboidratos, é importante considerar o índice glicêmico dos alimentos e das combinações alimentares.

*Dra. Zuleika Salles Cozzi Halpern - Médica Endocrinologista
Mariana Del Bosco Rodrigues - Nutricionista

 

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