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"A
modernidade é um estado de perda".
Esta afirmação foi feita pelo historiador T. J. Clark.
Levando-se em conta a epidemia mundial de obesidade, isto não deixa de ser
verdadeiro; por isso, vou fazer algumas considerações em relação à esta
afirmativa.
Em 6 de Fevereiro de 2005, houve um Especial na Folha de São Paulo sobre o
chef catalão Santi Santamaría, falando sobre identidade cultural e autonomia
política, defendendo a aliança entre prazer e consciência cultural.
Em 26 de setembro de 2004, liderou um manifesto assinado por 111
cozinheiros, em que reivindicava para a cozinha o status de patrimônio
cultural e a devida atenção por parte do Estado, além de advertir para os
riscos da homogeinização decorrente da globalização e para a ameaça
representada pela miséria. Indicava também a necessidade de articulação da
culinária com a agricultura sustentável.
Em sua opinião, a questão de identidade se apóia primeiramente na língua e,
logo em seguida, na culinária.
Diz que a tendência à homogeinização, à uniformização, é um perigo enorme.
Ao final, teremos robôs em vez de pessoas.
Quando você abre um pacote de algo industrializado, uniformizado, o que
temos é uma pasteurização, continua.
Onde está o respeito aos agricultores, aos pescadores, aos açougueiros, aos
artesãos, pergunta. Dra. Zuleika Salles Cozzi Halpern
Diz ter liderado este manifesto porque há aspectos da alimentação que, ao
invés de melhorar, andam piorando. É preciso chamar a atenção para aquilo
que a globalização põe em risco.
As pessoas vão ao supermercado e compram uma quantidade absurda de alimentos
como se estivéssemos às vésperas da terceira guerra mundial. Têm suas casa
repletas de latas, completa.
No dia seguinte, dia 7 de Fevereiro p.p., li outro artigo muito
interessante, de Ricardo Freire, na Revista Época.
Fala sobre um livro francês "French Women Don´t Get Fat" (Mulheres Francesas
não Engordam), de Mireille Guiliano.
Neste livro, diz Ricardo Freire, é proposto a troca do supermercado pelo
mercado. O industrializado pelo artesanal. Uma barrona de chocolate
vagabundo por um quadradinho de chocolate fino. Uma hora de esteira na
academia por meia hora de caminhada na hora do almoço.
Considerações sobre o artigo:
Mulheres francesas não fazem dieta. Mulheres
francesas não cortam carboidrato.Mulheres francesas pedem entrada, prato
principal e sobremesa. Mulheres francesas tomam vinho. Mulheres francesas
comem pão e chocolate. Mesmo assim, mulheres francesas não engordam.
Prováveis motivos considerados: mulheres francesas não comem nada entre as
refeições, mulheres francesas não comem em pé nem vendo televisão e em vez
de comer muito de uma coisa só, mulheres francesas comem um pouquinho de
tudo.
Dr. Carlos Eduardo Monteiro, diretor do Departamento de Nutrição da
Faculdade de Saúde Pública da USP e criador do Nupens (Núcleo de Pesquisas
Epidemiológicas em Nutrição e Saúde), integrou a equipe de quatro
pesquisadores que se associou ao Ministério da Saúde e ao IBGE para a
elaboração e interpretação da pesquisa divulgada em Dezembro de 2004.
Em uma entrevista ao jornal " Folha de São Paulo" de 17 de Dezembro de 2004,
relata o acentuado declínio da fome e a paralela ascensão da obesidade na
população adulta brasileira e aponta duas pistas importantes: o aumento do
teor de gordura na alimentação e a manutenção de um teor excessivo de
açúcar.
Há um declínio contínuo de alimentos tradicionais e saudáveis da dieta do
brasileiro, como o feijão e a mandioca, e a simultânea ascensão de
biscoitos, refrigerantes e ali-mentos industrializados, além de ser muito
baixa a participação de frutas e hortaliças na alimentação, estagnada há 30
anos.
Para complicar, há o declínio da atividade física, seja pela freqüência
crescente de ocupações que não exigem esforço físico intenso, seja pelas
formas sedentárias de lazer.
Por conta de todos esses fatores da "vida moderna", a maior parte das mortes
se dá por doenças do coração, derrames, diabetes e vários tipos de câncer,
enfermidades fortemente associadas ao excesso de calorias e a dietas com
excesso de gorduras, sal e açúcar, completa Dr. Monteiro.
Apesar da fome seguir uma tendência de redução, ainda é uma causa relevante
de mortalidade no nosso país e, assim como devemos prevenir e controlar a
obesidade, precisaríamos erradicar a fome, que, particularmente para a
população indígena de nosso país, também é uma conseqüência da modernidade.
Acredito que, como eu, todos que souberam das condições com as quais índios
guaranis e caiuás da reserva de Dourados (218 km de Campo Grande) conseguem
sobre-viver, ficaram chocados.
As crianças desses povos são as mais atingidas por desnutrição e mortalidade
infantil no país, recorrendo ao lixão para sobreviver.
Os índios não têm onde plantar, não têm condições básicas para sobreviver
após a invasão de suas terras.
O governo brasileiro aprovou, em maio passado na Assembléia Mundial de
Saúde, em Genebra, orientações, para que sejam passadas à população, sobre a
importância de uma alimentação equilibrada, reconhecendo a necessidade de
implementar políticas públicas que permitam a adoção de práticas saudáveis
de alimentação, mas não podemos esquecer que estas recomendações devem
atingir toda a população brasileira, havendo de se eliminar de vez a fome no
nosso país.
Aí, sim, poderíamos nos orgulhar de viver num mundo mais moderno, apesar das
perdas naturais decorrentes do progresso.
Dra. Zuleika Salles Cozzi Halpern
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