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Por Dra. Zuleika Salles Cozzi Halpern e
Mariana Del Bosco Rodrigues*
Os
carboidratos são compostos formados por carbono,oxigênio e hidrogênio e são
os maiores responsáveis pelo fornecimento de energia. Desde o começo do
século XX, são classificados como “simples” ou “complexos”, de acordo com o
grau de polimerização.
Os carboidratos simples são os monossacarídeos (frutose, glicose,
galactose) e os dissacarídeos (sacarose, maltose, lactose) e os carboidratos
complexos são os polissacarídeos (amido, glicogênio).
Todos os tipos de carboidratos, ao
serem digeridos, transformam-se em glicose, mas os seus efeitos fisiológicos
não dependem exclusivamente do grau de polimerização, e sim, da capacidade
de elevar a glicemia.
Em 1981, Jenkins e cols. propuseram um
novo sistema de se classificar os carboidratos através da resposta glicêmica
ou do índice glicêmico.
Os vários alimentos que são fontes de
carboidrato levam a diferentes respostas glicêmicas e o índice glicêmico é
definido a partir dessa resposta da glicose pós-prandial, em comparação a um
alimento padrão (que pode ser a glicose ou o pão branco).
De maneira geral, os fatores que
influenciam na resposta glicêmica são: a natureza do amido (amilose e
amilopectina), a quantidade de monossacarídeos (frutose, galactose), a
presença de fibras, a cocção ou o processamento, o tamanho das partículas, a
presença de fatores antinutricionais (fitatos) e a proporção de
macronutrientes (proteína e gordura).
O índice glicêmico sinaliza a forma
como o carboidrato é digerido, absorvido e utilizado. É provável que, ao se
prolongar o tempo de absorção, seja possível interferir na etilogia das
doenças crônicas.
Com a redução do índice glicêmico da
dieta, tem-se menor demanda insulínica, melhor manutenção da glicemia e
redução da lipidemia. Estes fatores, claramente, têm importante papel na
prevenção e no tratamento das doenças crônicas como obesidade, diabetes,
doenças cardíacas e até alguns tipos de cânceres.
Para manutenção da glicemia, o
organismo utiliza-se de alguns mecanismos reguladores. A ingestão de
alimentos com alto índice glicêmico altera esse mecanismo de homeostase.
Na primeira hora depois de uma refeição
de alto índice glicêmico (início do período pós-prandial), a concentração de
glicose pode ser o dobro da encontrada após uma refeição de baixo índice
glicêmico, com os mesmos nutrientes e com mesma quantidade de calorias.
Esta relativa hiperglicemia estimula a
secreção de insulina (células beta do pâncreas) e inibe a secreção de
glucagon. Com isso, tem-se uma exagerada resposta anabólica que inclui maior
captação de nutrientes, glicogênese, lipogênese e supressão da
gliconeogênese e lipólise.
Após as duas primeiras horas da
refeição de alto índice glicêmico, não se tem mais absorção, mas os efeitos
da hiperinsulinemia persistem, resultando numa brusca queda da glicemia.
É comprovado que fatores genéticos
influenciam na resposta pós-prandial e que esta resposta é geralmente
individual. Mas os estudos demonstram que a hipoglicemia pós-prandial
seguida de uma refeição de alto índice glicêmico pode ser considerada uma
regra.
Esta resposta parece ser ainda mais
pronunciada e evidente em obesos. Este dado nos leva a considerar a
prescrição de dietas de baixo índice glicêmico para os nossos pacientes,
ainda mais se considerarmos o efeito rebote de fome, conseqüente da baixa
circulação de combustíveis no final do perído pós-prandial.
A busca por alimento acaba sendo um
reflexo para restabelecer a homeostase energética e vários estudos
demonstram esse comportamento em ratos e humanos.
Até hoje não existem estudos clínicos
de longa duração para que possamos comprovar o efeito de dietas de baixo
índice glicêmico para regulação do peso corpóreo. Em contrapartida, existem
muitas evidências de que esta pode ser uma boa estratégia na dietoterapia.
Além disso, sabemos que em ratos esta
resposta, glicêmica/insulinemica a refeições com alto índice glicêmico, leva
a uma maior deposição de gordura, a um aumento no tamanho dos adipócitos, a
um aumento da incorporação de glicose nos tecidos lipídicos e a uma maior
síntese de ácidos graxos. Em um estudo de Pawlak e cols (2000), ratos
alimentados com dieta de alto índice glicêmico tornam-se obesos em um
período de 32 semanas.
A
partir de um estudo de revisão bibliográfica sobre os efeitos do índice
glicêmico na manutenção ou ganho de peso, observa-se que 99% dos estudos em
humanos comprovam uma menor sensação de saciedade e uma intensificação da
fome em dietas de alto índice glicêmico.
Slabber e cols (1994), em um estudo com
mulheres obesas, observou uma perda de peso significantemente maior no grupo
que seguiu dieta de baixo índice glicêmico (ambos os grupos com dietas
hipocalóricas).
Estudos em gestantes também evidenciam
menor ganho de peso com dietas de baixo índice glicêmico.
É interessante notar que até o final da
década de 80 a gordura era apontada como grande vilã da dieta e uma das
grandes responsáveis pelo aumento da prevalência de obesidade. Os estudos
demonstram que, nos últimos anos, houve diminuição do consumo de gordura e
aumento do consumo de carboidratos refinados, que tendem a ser mais
rapidamente absorvidos.
As recomendações dietéticas atuais não
devem focar-se apenas na diminuição do consumo de gordura, mas na escolha do
tipo de gordura e tipo de carboidrato.
Com relação a gordura, a dieta ideal
deveria fornecer de 25 a 30% das calorias sob a forma de lipídeos. Em 2000,
o NCEP - EUA (National Cholesterol Education Program) recomenda dietas com
maior percentual de gordura (35%) para prevenção e manutenção da lipidemia
em níveis normais.
Com relação aos carboidratos, os muito
simples e refinados devem ser evitados para que a absorção e a digestão não
sejam aceleradas, trazendo as conseqüências fisiológicas já descritas.
Os alimentos de baixo índice glicêmico
são mais ricos em fibras e uma das teorias atesta que as fibras – sobretudo
as fibras solúveis – favorecem uma maior distenção gástrica, o que leva a
uma maior secreção de colecistoquinina (CCK).
Sendo assim, por outra via, os alimentos de baixo índice glicêmico novamente
induzem a sensação de saciedade.
Dietas de baixo índice glicêmico podem ser uma alternativa não só
para pacientes obesos mas também para portadores de outras doenças
crônico-degenerativas. Pode até ser uma recomendação de alimentação saudável
para a população em geral.
O consumo regular de alimentos de alto
índice glicêmico resulta em maiores níveis de glicemia, insulinemia e maior
concentração de hemoglobina glicosilada, avaliando-se em um período de 24
horas.
O conceito de índice glicêmico pode não
ser simples do ponto de vista científico, mas sua utilização pode ser uma
ferramenta para promoção de uma alimentação saudável. Acreditamos que a
aplicação destes conceitos pode ser bem simples.
De maneira geral, precisamos estimular
o consumo de vegetais, legumes, alimentos integrais e não refinados e
limitar a ingestão de tubérculos, carboidratos refinados e açúcares simples.
Como a composição da refeição – ou seja, a quantidade de fibras, proteínas e
gorduras - interfere no índice glicêmico final, precisamos orientar
refeições balanceadas, com a quantidade adequada de macro-nutrientes. As
orientações e o fracionamento da dieta também são importantes.
Essas recomendações levam a promoção de
uma alimentação saudável! Rica em fibras, de baixa densidade energética,
adequada com relação aos macronutrientes e antioxidantes. É, portanto, uma
recomendação que favorece a manutenção de um peso saudável, a manutenção da
saúde e a prevenção de doenças crônicas.
*Dra. Zuleika Salles Cozzi Halpern - Médica
Endocrinologista
Mariana Del Bosco Rodrigues - Nutricionista
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