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Mônica Beyruti
Ana Paola Monegaglia
Mariana Del Bosco Rodrigues
Nutricionistas
A
obesidade é uma doença crônica que afeta cada vez mais crianças e
adultos. Na última década sua prevalência aumentou 32%. Nos países
desenvolvidos, onde os alimentos ricos em energia são abundantes e
baratos e os estilos de vida são cada vez mais sedentários, a obesidade,
há algum tempo, já é um problema significativo. Os países em
desenvolvimento têm a desnutrição como um dos maiores problemas, mas a
obesidade vem crescendo assustadoramente e já é também considerada uma
grave questão de saúde pública. No Brasil, 40% dos adultos e 20% das
crianças têm excesso de peso (Monteiro e cols.,1997).
A obesidade é acompanhada por um aumento marcante do número de células
adiposas. Através da perda de peso, pode-se conseguir a diminuição no
tamanho celular, mas o número de células permanece alto. O aumento do
número de células é maior quando o ganho de peso ocorre precocemente do
que quando se inicia mais tarde. Não se sabe ao certo se esse estímulo é
nutricional, endócrino, comportamental, genético ou alguma combinação
dessas associações (Waitzberg, 2000).
São vários os fatores incluídos na gênese da obesidade que se encontram
ainda inconclusivos. Dentre eles, podemos destacar o papel dos macronutrientes.
Evidências epidemiológicas mostram que o aumento da ingestão de gorduras
está relacionado com o aumento da obesidade (Monteiro, 1999).
Um estudo realizado no ambulatório de obesidade do hospital das clínicas
da FMUSP mostra que indivíduos que procuram tratamento para redução de
peso apresentam uma alimentação predominantemente hiperlipídica.
A partir de evidências clínicas e de
artigos científicos, pretendemos destacar os principais efeitos da dieta
do Dr. Atkins no emagrecimento e verificar suas implicações relacionadas
ao bem-estar e estado de saúde, considerando o aporte de calorias e
nutrientes, o perfil lipídico e o controle de fome e saciedade.
Qual o tipo de dieta mais indicado para perda de peso? Existe uma
composição ideal ou mais eficiente com relação aos macronutrientes no
tratamento da doença?
A dieta
A dieta do Dr. Atkins é a mais famosa das dietas pobres em carboidrato e
ricas em proteína e gordura. Geralmente, as dietas com essas
características apresentam de 55-65% de gorduras, 25-30% de proteínas e
menos de 20% de carboidratos.
Robert Atkins é um médico cardiologista que relata ter observado os
efeitos da sua dieta em pacientes cardiopatas, tendo a perda de peso
como um efeito adicional. A partir de sua experiência, publicou seu
primeiro livro em 1972. Após vinte anos, o autor atualiza alguns
conceitos e publica “A nova dieta revolucionária do Dr. Atkins”.
O autor sugere que existe uma “vantagem metabólica” da proteína com
relação ao carboidrato, sendo assim o indivíduo poderia emagrecer
independentemente da in-gestão calórica.
Em uma revisão bibliográfica sobre os vários tipos de dieta, Freedman e
cols. (2001) demonstram que dietas hipocalóricas, independentemente da
distribuição dos macronutrientes, resultam em perda de peso. Em outro
estudo, Wing e cols. (1994) discutem a melhora do controle glicêmico e
diminuição da resistência a insulina como um reflexo do emagrecimento,
em qualquer tipo de dieta. RaeiniSarjaz e cols. (2001) afirmam que
restrição calórica é importante para melhora do perfil lipídico.
Quanto à perda de peso, pode-se dizer que, sem dúvida, o que vale em uma
dieta são as calorias totais.
A dieta Atkins não restringe calorias, mas com a proibição dos
carboidratos a alimentação fica restrita, sendo assim, como outras
dietas da moda, acaba se tornando monótona e talvez por isso
hipocalórica, o que vem a favorecer a perda de peso.
Atkins considera o carboidrato como grande vilão pelo fato de favorecer
o aumento da insulina. A insulina seria responsável por um maior acúmulo
de gordura, maior retenção hídrica, aumento de triglicérides e maior
risco de doenças cardiovasculares.
A hiperinsulinemia realmente aumenta a captação de nutrientes, inibe a
lipólise e favorece um aumento no tamanho dos adipócitos, e está
amplamente relacionada com a obesidade. A discussão ainda permanece, mas
não se sabe ao certo se a elevação dos níveis de insulina é causa ou
reflexo do sobrepeso (Frost et al, 2000; Felig et al.).
Por outro lado, Schwartz (2000), analisando estudos experimentais,
coloca que a insulina tem uma função essencial no SNC para o controle da
fome e saciedade, gasto energético e regulação da leptina.
Além disso, o potencial de elevação de glicemia/insulinemia não está
simplesmente relacionado à ingestão de carboidratos, mas sim, ao tipo de
carboidrato (simples ou complexo), à composição da alimentação
(proteínas, fibras) e ainda a outros estímulos, como, por exemplo,
presença de gordura saturada.
A dieta Atkins propõe uma drástica redução na ingestão de carboidratos
que varia de 15 a 60 g, de acordo com as fases que ele denominou de:
indução, perda de peso contínua, pré-manutenção e manutenção.
A indução duraria em média 14 dias e a ingestão de carboidrato não
ultrapassa 15 g por dia. Segundo Atkins, neste período, a perda de peso
é “surpreendente” e esse é um dos maiores estímulos para seguir a dieta
pela “vida inteira”.
Para ingressar na segunda fase (a
continuação) seria necessário fazer exames laboratoriais para avaliar o
perfil lipídico. Caso haja aumento de colesterol total e LDL, o autor
sugere a substituição de gordura saturada por insaturada. A quantidade
de carboidratos, então, deve ser de, no máximo, 30 g por dia.
A pré-manutenção seria uma fase de
transição, em que o indivíduo pode reduzir ou manter o peso. A dieta
ainda é restritiva e a quantidade de carboidrato fica em torno de 45 g
por dia.
A última fase é permanente e, de acordo com o autor, favorece a
manutenção do peso. A quantidade de carboidratos deve aumentar
gradativamente, respeitando a tolerância individual, podendo chegar até
a 60 g por dia. Os doces continuam sendo proibidos. Se houver aumento de
2,5 kg, o programa deve ser reiniciado.
De acordo com os princípios da dieta Atkins vale colocar em questão se
realmente as gorduras são mais adipogênicas.
Estudos mostram que, inclusive entre as camadas mais pobres da
população, a transição nutricional está relacionada com o aumento do
consumo de gorduras e proteínas (Monteiro et al, 1997).
Esta marcante ingestão de gorduras pode estar relacionada com uma maior
palatabilidade, uma mastigação menos trabalhosa, menor efeito
sacietógeno no momento da ingestão, maior densidade energética, e ainda,
balanço energético menos eficiente.
De acordo com Foster e cols. (2001), ao comparar a adesão das dietas
Atkins e dieta convencional por 12 semanas, houve uma maior adesão à
dieta das proteínas.
Num estudo de Horton e cols. (1995) observou-se que os macronutrientes
se oxidam de forma diferente, ou seja, com uma sobrecarga de
carboidratos, ocorre uma maior oxidação destes; no entanto, quando a
sobrecarga é de gordura, esta não se oxida mais, com conseqüente
acúmulo.
Além da distribuição dos macronutrientes, também é importante considerar
o tipo de gordura utilizado na dieta. De acordo com Delany e cols.
(2000), quanto mais longa for a cadeia do ácido graxo, mais saturado ele
será e, portanto, engordará mais que os mais insaturados.
De acordo com Foster e cols. & Brehm e cols. (2001), em uma comparação
entre a dieta Atkins e convencional, a Atkins parece favorecer a relação
LDL/HDL. No entanto, acreditamos que as frações HDL e LDL modificadas
se-jam as ruins e não as protetoras, o que ainda deve ser investigado.
Conclusão
São necessários estudos com maior duração para avaliar a possível
eficácia clínica e segurança da Dieta do Dr. Atkins como ferramenta
terapêutica na redução e manutenção de peso a longo prazo.
Para o tratamento da obesidade é seguro afirmar que dietas hipocalóricas
e balanceadas, que proponham uma reeducação alimentar, trazem os
resultados mais eficazes e duradouros.
Referências bibliográficas à
disposição sob solicitação
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