|
Zuleika S. C. Halpern1
Mariana Del Bosco Rodrigues2
Roberto Fernandes da Costa3
1Médica endocrinologista do Grupo de Estudo, Assistência e
Pesquisa em Comer Compulsivo e Obesidade – GRECCO/Ambulatório de
Bulimia e Transtornos Alimentares do Ipq – AMBULIM – Instituto
de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina
da Universidade de São Paulo – HC-FMUSP.
2Nutricionista do GRECCO/AMBULIM-IPq-HC-FMUSP
3 Educador físico do GRECCO/AMBULIM-Ipq-HC-FMUSP
Resumo
A obesidade é um dos principais problemas de
saúde pública da atualidade, apresentando etiologia
multifatorial. Entre os determinantes fisiológicos do controle
do peso e do apetite, estão fatores neuronais, endócrinos,
adipocitários e intestinais. A leptina e a insulina são
hormônios secretados em proporção à massa adiposa e atuam
perifericamente, estimulando o catabolismo. No sistema nervoso
central, a insulina e a leptina interagem com receptores
hipotalâmicos, favorecendo a saciedade. Indivíduos obesos têm
maiores concentrações séricas destes hormônios e apresentam
resistência à sua ação. Os peptídeos intestinais, combinados a
outros sinais, podem estimular (grelina e orexina) ou inibir (CCK,
leptina e oximodulina) a ingestão alimentar. Todos atuam nos
centros hipotalâmicos, que são os grandes responsáveis pelo
comportamento alimentar.
Palavras-chave: Obesidade, controle do
peso, saciedade e apetite.
Abstract
Obesity is currently one of the main problems of public health,
presenting multifactorial etiology. The main involved factors in
the control of weight and appetite are neuronal, endocrine,
adipocity and intestinal. Leptine and insuline are hormones
produced proportionally to adipose mass and act stimulating the
catabolism. In the central nervous system, insuline and leptine
interact with hypothalamic receivers favoring the satiety.
Individuals with obesity have high seric concentrations of these
hormones and present resistance to their action. The intestinal
peptides, associated with other signals, can stimulate (greline
and orexine) or inhibit (CKK, leptine and oxymodulin) the food
intake. All act in the hypothalamic centers, that are the major
responsible for the nutrititional behavior.
Keywords: Obesity, weight control, satiety and appetite.
Introdução
A obesidade é uma doença multifatorial que vem
atingindo proporções epidêmicas tanto em países desenvolvidos
como em países em desenvolvimento (Peña e Bacallao, 2000). O
aumento de sua prevalência confere-lhe grande importância como
problema de saúde pública. Tal fato deve-se à grande associação
existente entre o excesso de gordura corporal e o aumento de
morbimortalidade, pois essa condição aumenta o risco de se
desenvolver doença arterial coronariana, hipertensão arterial,
diabetes tipo II, doença pulmonar obstrutiva, osteoartrite e
certos tipos de câncer (Fujimoto, 1999).
Segundo Bouchard (2000), o peso corporal é uma função do balanço
de energia e de nutrientes ao longo de um período de tempo. O
balanço energético é determinado pela ingestão de
macronutrientes, pelo gasto energético e pela termogênese dos
alimentos. Assim, o balanço energético positivo por meses
resultará em ganho de peso corporal na forma de gordura,
enquanto o balanço energético negativo resultará no efeito
oposto.
Vários fatores atuam e interagem na
regulação da ingestão de alimentos e de armazenamento de energia,
contribuindo para o surgimento e a manutenção da obesidade.
Entre eles, fatores neuronais, fatores endócrinos e
adipocitários e fatores intestinais.
Fatores
neuronais
O controle da ingestão de nutrientes e o
decorrente estado de equilíbrio homeostático dependem de uma
série de sinais periféricos que atuam diretamente sobre o
sistema nervoso central, levando a respostas adaptativas
apropriadas. A ingestão alimentar e o gasto energético são
regulados pela região hipotalâmica do cérebro (Williams et al.,
2001; Sainsbury et al., 2002). Além disso, sabe-se que a
expressão do apetite é quimicamente codificada também no
hipotálamo (Kalra, 1997).
O entendimento atual do sistema envolvido nesta regulação sugere
que, no hipotálamo, há dois grandes grupos de neuropeptídeos
envolvidos nos processos orexígenos e anorexígenos (Sainsbury et
al., 2002). Os neuropeptídeos orexígenos são o neuropeptídeo Y (NPY)
e o peptídeo agouti (AgRP); já os neuropeptídeos anorexígenos
são o hormônio alfa-melanócito estimulador (Alfa-MSH) e o
transcrito relacionado à cocaína e à anfetamina (CART).
Segundo Sainsbury et al. (2002), os neurônios que expressam
esses neuropeptídeos interagem com cada outro e com sinais
periféricos (como a leptina, insulina, grelina e
glucocorticóides), atuando na regulação do controle alimentar e
do gasto energético. Ainda que seja possível identificar os
locais hipotalâmicos envolvidos na regulação do apetite, a
localização precisa dos receptores neurais para cada sinal
orexigênico e anorexigênico ainda não está determinada. Os
receptores para estes sinais estão concentrados no núcleo
paraventricular (PVN), mas eles não estão restritos a esta área
(Kalra et al., 1999).
Fatores endócrinos e adipocitários
A homeostase energética é controlada por um
sistema neuro-humoral que minimiza o impacto de pequenas
flutuações no balanço energético, sendo que a leptina e a
insulina são elementos críticos desse controle e são secretados
em proporção à massa adiposa (Woods et al., 1998). A leptina,
produzida no tecido adiposo branco, atua nos receptores
expressos no hipotálamo para promover a sensação de saciedade e
regular o balanço energético (Suyeon e Moustadid-Moussa, 2000).
Diversos trabalhos sugerem que a leptina atua no sistema nervoso
central através de mediadores como o neuropeptídeo Y, o peptídeo
agouti (AgRP), o hormônio liberador de corticotropina (CRH), o
hormônio estimulante dos melanócitos (MSH), a colecistocinina (CKK),
entre outros. Em altas concentrações séricas, a leptina não
consegue atuar devido à resistência que acaba limitando seu
efeito anoréxico (Woods et al., 1998).
A insulina é produzida pelas células beta do pâncreas, e a sua
concentração sérica também é proporcional à adiposidade. Com seu
efeito anabólico, a insulina aumenta a captação de glicose, e a
queda da glicemia é um estímulo para o aumento do apetite (Woods
et al., 1998). Por outro lado, estudos experimentais
demonstraram que a insulina tem uma função essencial no sistema
nervoso central para incitar a saciedade, aumentar o gasto
energético e regular a ação da leptina (Schwartz, 2000). A
insulina ainda interfere na secreção de entero-hormônios como
glucagon-like-peptide (GLP 1), que atua inibindo o esvaziamento
gástrico e, assim, promovendo uma sensação de saciedade
prolongada (Verdich et al., 2001).
Indivíduos obesos têm elevadas
concentrações de insulina e leptina. A administração destes
hormônios não é alternativa viável de tratamento, justamente em
função da resistência que é resultante de altas concentrações
séricas. Além disso, cabe ressaltar que a insulina tem o efeito
periférico de aumentar a captação de glicose e lipídeos, levando
à queda da glicemia e à conseqüente fome rebote, além de
favorecer o aumento dos estoques de gordura, respectivamente
(Woods et al., 1998).
Fatores intestinais
A absorção, ou mesmo a presença de alimento no
trato gastrintestinal, contribui para modulação do apetite e
para regulação de energia (Verdich et al., 2001). O trato
gastrintestinal possui diferentes tipos de células secretoras de
peptídeos que, combinados a outros sinais, regulam o processo
digestivo e atuam no sistema nervoso central para a regulação da
fome e da saciedade. A sinalização ocorre por meio dos nervos
periféricos (como pelas fibras vagais aferentes) e por meio de
receptores (Guido, 2004).
No inicio dos anos 1970, descobriu-se que a CCK, um peptídeo
intestinal, atuava na promoção da saciedade (Woods et al.,
1998). Evidências demonstram que a saciedade prandial é
atribuída predominantemente à ação da CCK que é liberada pelas
células I do trato gastrintestinal, em resposta à presença de
gordura e proteína (Konturek et al., 2004). A CCK, além de
inibir a ingestão alimentar, também induz a secreção pancreática,
a secreção biliar e a contração vesicular (Konturek et al.,
2004).
Outro inibidor da ingestão alimentar é o
peptídeo YY, ou PYY. Este peptídeo é expresso pelas células da
mucosa intestinal, e sugere-se que a regulação é neural, já que
seus níveis plasmáticos aumentam quase que imediatamente após a
ingestão alimentar (Konturek et al., 2004). Obesos apresentam
menor elevação dos níveis de PYY pós-prandial, especialmente em
refeições noturnas, levando a uma ingestão
calórica maior.
A oxintomodulina (OXM) foi recentemente identificada como um
supressor da ingestão alimentar a curto prazo. Este peptídeo é
secretado na porção distal do intestino e parece agir
diretamente nos centros hipotalâmicos para diminuir o apetite,
diminuir a ingestão calórica e diminuir os níveis séricos de
grelina (Konturek et al., 2004). A OXM atua principalmente em
condições especiais, tais como após cirurgia bariátrica.
A grelina é secretada por células A/X da mucosa gástrica e é um
dos mais importantes sinalizadores para o início da ingestão
alimentar. Sua concentração mantémse alta nos períodos de jejum
e nos períodos que antecedem as refeições, caindo imediatamente
após a alimentação, o que também sugere um controle neural (Konturek
et al., 2004). A grelina, além de aumentar o apetite, também
estimula as secreções digestivas e a motilidade gástrica. (Konturek
et al., 2004).
A infusão de grelina exógena pode aumentar a ingestão alimentar
em 30% por suprimir a saciedade pós-prandial. Em ratos, o PYY
parece diminuir a ingestão alimentar em 40% e diminuir a
concentração de grelina. O aumento da concentração de grelina
diminui a ação da leptina, e vice-versa (Berazzoni et al.,
2003).
Conclusão
A obesidade e os transtornos alimentares são
determinados pela associação de diversos fatores, e esta
multicausalidade dificulta seus tratamentos. A descrição das
inúmeras substâncias envolvidas na regulação do apetite e no
controle do peso, a identificação de todos os centros envolvidos
e as evidências de suas inter-relações demonstram a complexidade
do comportamento alimentar e da homeostase energética.
Referências bibliográficas
AMBROGGI, M.; VOLPE, S. TAMANINI, C.- Ghrelin:
central and peripheral effects of a novel peptydil hormone.
Medicine Science Monitor 9: RA217-24, 2003.
BERAZZONI, R.; ZANETTI M.; STEBEL, M.;
BIOLO., G; CATTIN L. & GUARNIERI, G.- Hyperleptinemia prevents
increased plasma ghrelin concentration during short term
moderate caloric restyrition in rats. Gastroenterology 124:
1188-92, 2003.
BOUCHARD, C.- Physical activity and obesity. Human Kinetics,
Champaign, 2000.
FUJIMOTO, W.Y.; BERGSTRON, R.W.; BOIKO, E.J.; CHEN, K.; LEONETTI,
D.; NEWELL-MORRIS, L. et al.- Visceral adiposity and incident
coronary heart disease in Japanese-American men. Diabetes Care,
22(11): 1808-12, 1999.
GUIDO, R.; LEITER, A.B.; KOPIN, A.S.; BORDI, C. & SOLCIA, E.-
The “normal” endocrine cell of the Gut: changing concepts and
new evidences. Annals of New York Academy of Sciences 1014:
1-12, 2004.
KALRA, S.P.- Appetite and body weight
regulation: is it all in the brain? Neuron 19: 227-30, 1997.
KALRA, S.P.; DUBE, M.G.; PU, S.; XU, B.;
HORVATH, T.L . & KALRA, P.S.- Interacting appetite-regulating
pathways in the hypothalamic regulation of body weight.
Endocrine Reviews, 20(1): 68-100, 1999.
KONTUREK, S.J.; KONTUREK, J.W.; PAWLIK, T.
& BRZOZOWKI, T.- Braingut axis and its role in the control of
food intake. Journal of Physiology and Pharmacology 55: 137-54,
2004.
MATSON C.A. & RITTER, R.C.- Long term CCK-leptin synergy
suggests a role for CCK in the regulation of body weight.–
American Journal of Physiolology 276: R1038-R1045, 1999.
PEÑA, M. & BACALLAO, J.- La obesidad en la
pobreza: Un nuevo reto para la salud pública. Publicação
Científica, Washington (DC): OPS, nº 576, 2000.
SAINSBURY, A.; COONEY, G.J. & HERZOG, H.- Hypothalamic
regulation of energy homeostasis. Best Pract Res Clin Endocrinol
Metab 16(4): 623-37, 2002.
SCHWARTZ M.V.- Staying slim with insulin in mind. Science 289:
2066-7, 2000.
VERDICH, C.; TOUBRO, S.; BUEMANN, B.
MADSEN, J.L.; HOLST J.J. & ASTRUP, A.- International Journal of
Obesity 25: 1206-14, 2001.
SUYEON, K. & MOUSTAID-MOUSSA, N.-
Secretory, endocrine and autocrine/paracrine function of
adipocyte. Journal of Nutrition 130: 3110S-315S, 2000.
WILLIAMS, G.; BING, C.; CAI, X.J.; HAROLD, J.A.; KING, P.J. &
LIU, X.H.- The hypothalamus and the control of energy
homeostasis: different circuits, different purposes. Physiol
Behav: 683-701, 2001.
WOODS, S.C.; SEELEY, R.J.; PORTE JR, D. & SCHWARTZ, M.W.-
Signals that regulate food intake and energy homeostasis.
Science 280: 1378-83, 1998.
voltar |