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Por Dra. Zuleika Salles Cozzi Halpern e
Mariana Del Bosco Rodrigues*
Chocolate para os Aztecas (xocolati) era uma
bebida sagrada, o alimento dos deuses.
Somente o conselho de guerra
e os soldados tinham permissão para bebê-lo, devido aos super poderes
atribuídos a quem o tomava.
Montezuma tomava um gole antes de visitar as
mulheres e não era permitido a elas chegar perto desta bebida.
Apesar deste racionamento, o
conselho de guerra tomava 2 000 jarros de chocolate por dia, aromatizado e
condimentado com chilli, pimenta, especiarias ou baunilha.
Hoje em dia, muito chocolate é uma paródia. O
verdadeiro é escuro e amargo.
Bom chocolate, feito com
manteiga de cacau e contendo pelo menos 60% de cacau sólido, é tão
delicioso, forte e caro, que somente pequenas quantidades podem ser
ingeridas.
O bom chocolate, quando colocado na ponta da
língua, derrete completamente.
Deixando de lado as
curiosidades, vamos falar um pouco sobre algumas evidências científicas
deste alimento dos deuses .
Não há evidências científicas
de que o chocolate seja capaz de causar dependência, porém, diante de uma
privação ou após o consumo, algumas pessoas parecem ter reações
psicofarmacológicas inerentes a um vício.
Alguns estudos mostram que o
chocolate pode desencadear comportamentos de compulsão e busca frenética,
principalmente entre as mulheres.
O termo chocaholic é
comumente utilizado e expressa a necessidade (motivação periódica e intensa)
de consumir o chocolate ou algum produto à base de chocolate. Alguns autores
estimam que 40% das mulheres apresentam este comportamento e, deste total, ¾
não satisfazem esta necessidade com qualquer outra substância que não seja o
próprio chocolate.
Existem algumas teorias e
muitas controvérsias nas possíveis explicações de como o chocolate induziria
a um comportamento de adição (uso abusivo e síndrome de abstinência).
Na literatura existem 4
teorias básicas para justificar este comportamento: motivação sensorial,
possível ação farmacológica por componentes bioativos, busca específica
relacionada a carência de micronutrientes e resposta hormonal, esta última
exclusivamente para as mulheres.
O chocolate apresenta gosto,
textura, cheiro e consistência bastante peculiares e a associação açúcar e
gordura parece ser a principal responsável pelas agradáveis características
organolépticas que incitariam a um consumo compulsivo.
Alguns pesquisadores
atribuíram o vício pelo chocolate a algumas substâncias que apresentam ações
semelhantes às catecolaminas como a tiramina e a feniletilamina (PEA).
Ao se analisar amostras de
chocolate, observa-se que cada grama contém cerca de 0,4 a 6,6 mcg de PEA,
quantidade inferior a encontrada em queijos e embutidos, o que não
justificaria o craving . Além disso, estudos demonstram que a ingestão de
até 1g de PEA não alteraria a concentração urinária de seus metabólitos.
Especula-se ainda que a busca
pelo chocolate possa estar associada às metilxantinas. A cafeína e a
teobromina são conhecidos estimulantes presentes em diversos alimentos. O
cacau apresenta essas duas substâncias associadas e alguns autores afirmam
que poderia haver um sinergismo que potencializaria o efeito estimulante das
metilxantinas nos produtos a base de cacau.
O chocolate também possui
substâncias que mimetizam a ação da anandamida, um neuromodulador que
aumenta a atividade da dopamina. Estas substâncias são capazes de ativar os
receptores e elevar os níveis da anandamida, o que poderia intensificar as
propriedades sensoriais do chocolate e seria fundamental para a compulsão.
Entretanto, é possível que a quantidade de análogos da anandamida presente
no chocolate seja insuficiente para induzir efeitos neuroquímicos.
Outra teoria sugere que a
busca pelo chocolate pode-ria ser motivada por deficiência de
micronutrientes, como o magnésio. O estresse leva a um aumento da excreção
renal e diminuição da absorção intestinal de alguns minerais. Uma
deficiência de magnésio pode interferir nos níveis de dopamina e assim,
talvez alterar o humor. Segundo a RDA, a necessidade de magnésio para
pessoas adultas é de aproximadamente 300mg e o chocolate é uma fonte deste
mineral. Alguns autores acreditam que a suplementação de magnésio durante a
fase pré-menstrual poderia diminuir o desejo por chocolate. Vale lembrar,
porém, que as maiores fontes de magnésio são as castanhas, os cereais
integrais e os vegetais verdes.
Uma teoria bastante aceita
para justificar o consumo abusivo de doces baseia-se na modulação dos níveis
de serotonina. A ingestão de carboidratos aumentaria a disponibilidade do
triptofano - precursor da serotonina no cérebro.
Carboidratos com alto índice
glicêmico têm mais condições de promover síntese de serotonina e
conseqüentes melhoras no humor. O chocolate, por conter proteínas e gorduras
apresenta um índice glicêmico mais baixo que muitos outros doces e, mesmo
assim, é o alimento mais associado à compulsão. Estudos ainda demonstram que
a vontade de comer chocolate não é suprida com a ingestão de qualquer outro
alimento, por mais doce que seja.
Além disso, em uma
investigação com indivíduos que se autodefinem como viciados em chocolate,
há muitos relatos de sensação de culpa após o consumo, descartando a teoria
da serotonina, que seguiria uma sensação de bem-estar.
Acredita-se que o consumo de
chocolate pelas mulheres possa ser modulado pelas flutuações hormonais. Na
fase pré-menstrual, com a alteração nos níveis de estrógeno e progesterona,
parece haver um maior consumo de doces e gorduras.
Algumas evidências sugerem
que os níveis de serotonina estão mais baixos no período que antecede a
menstruação, o que levaria a uma maior busca de doces e alimentos
palatáveis.
Há relatos de que a galanina
e o neuropeptídeo Y variam com as alterações hormonais, aumentando seus
níveis séricos com o aumento da progesterona.
Um estudo em ratas demonstrou
que injeções hipotalâmicas de neuropeptídeo Y estimulam o consumo de
carboidratos e gorduras e a galanina parece atuar da mesma forma. Outro
estudo mostrou que ratas que tem preferência por alimentos gordurosos tem
maiores concentrações de galanina e neuropeptídeo Y.
Apesar das poucas evidências,
sabemos que a escolha dos alimentos depende de fatores ambientais, orgânicos
e cognitivos. O ser humano acaba sendo condicionado a consumir determinado
alimento em algumas situações específicas como o bolo no aniversário, a sopa
com a doença, o chá com o resfriado, e, de certa forma, o chocolate com a
tristeza e decepção. O chocolate, muitas vezes é utilizado como um alívio ou
compensação. Este fator cognitivo também poderia, de certa forma, estar
associado a o comportamento compulsivo.
Com tantas teorias e
controversas é difícil identificar o (s) fator (es) que pode (m) estar
relacionado (s) a compulsão pelo chocolate e se realmente podemos garantir
que é um alimento com potencial de causar dependência. O apelo sensorial e a
composição química associados ao estado psicológico e a fatores cognitivos
parecem ser os determinantes da busca pelo chocolate.
Enquanto não sabemos se o
craving por chocolate está relacionado a alterações neuroquímicas ou
hormonais ou se não passa de um desejo por uma gratificação sensorial, pode
ser interessante, ou até mesmo necessário, permitir que os chocaholics
incluam pequenas doses diárias ou estipulem uma freqüência semanal para seu
consumo.
Devemos lembrar que, por um
mecanismo ou por outro, alguns de nossos pacientes podem apresentar, algum
grau de dependência e a permissão de uma peque-na porção de chocolate pode
favorecer uma maior adesão ao tratamento, principalmente à dieta.
*Dra. Zuleika Salles Cozzi Halpern - Médica
Endocrinologista
Mariana Del Bosco Rodrigues - Nutricionista
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